quarta-feira, 12 de março de 2025

O Sonho de Afrodite

            Hipnos era um homem solitário, um fotógrafo que vivia em um apartamento pequeno e repleto de imagens que ele mesmo capturara ao longo dos anos. Entre todas as fotos, havia uma que ele não tirou: uma imagem antiga de uma mulher misteriosa, Afrodite, que ele encontrara em um mercado de antiguidades. Ele não sabia de onde ela vinha, mas sentiu uma conexão imediata e inexplicável. A foto parecia viva, como se os olhos dela o seguissem pela sala, e ele não conseguia desviar o olhar.

À noite, Hipnos começou a sonhar com ela. Nos sonhos, ela era real, palpável, e o toque dela era tão intenso que ele acordava com o coração acelerado, mas sempre sozinho. Aos poucos, percebeu que não eram apenas sonhos: ela realmente estava ali, mas apenas enquanto ele dormia. Afrodite ganhava vida, saía da foto e ficava ao seu lado no quarto, realizando atos sensuais que o deixavam em um estado de êxtase. Quando ele acordava, ela já não estava mais lá, voltando para a foto instantes antes de ele despertar.

             Afrodite, por sua vez, vivia presa em um limbo entre a realidade e o mundo das imagens. Ela não sabia como fora parar na foto, mas sentia que sua existência estava ligada àquela imagem. Quando Hipnos dormia, ela ganhava vida, mas apenas dentro do quarto dele. Ela se apaixonou por ele, mas sofria por não poder tocá-lo quando ele estava acordado. Apesar das noites de amor, ela vivia uma vida triste, pois não podia realizar o sonho de ser sua mulher integralmente.

Com o tempo, Afrodite começou a deixar pequenos indícios de sua presença: um perfume no ar, uma mecha de cabelo no travesseiro, uma marca de batom no copo de água. Hipnos, confuso, começou a questionar sua sanidade, mas não conseguia resistir ao desejo de vê-la novamente. Ele passou a dormir mais, quase como um vício, para estar com ela. Seus amigos se afastaram, seu trabalho como fotógrafo ficou em segundo plano, e ele começou a negligenciar sua própria saúde.

Em um momento crucial, Afrodite revelou a Hipnos que ela não era humana, mas uma entidade presa em um feitiço antigo. Ela fora condenada a viver como uma imagem, apenas ganhando vida quando alguém a amava verdadeiramente. No entanto, o feitiço tinha um preço: se Hipnos continuasse a se entregar a ela, ele poderia ficar preso no mundo dos sonhos para sempre. Hipnos precisava decidir entre viver no mundo real, onde Afrodite nunca poderia ser completamente sua, ou mergulhar de vez no mundo dos sonhos, onde eles poderiam ficar juntos, mas à custa de sua própria humanidade.

Em um ato de amor, Afrodite tentou destruir a foto, sabendo que isso a faria desaparecer para sempre, mas Hipnos a impediu. Ele decidiu arriscar tudo e mergulhar no mundo dos sonhos, onde eles poderiam ficar juntos, mesmo que isso significasse abandonar a realidade. A história terminou com Hipnos adormecendo pela última vez, enquanto Afrodite o abraçava. No mundo real, ele nunca mais acordou, mas no mundo dos sonhos, eles finalmente estavam juntos, livres para viver seu amor eternamente. A foto, agora vazia, caiu no chão do quarto silencioso.

Anos se passaram desde que Hipnos adormecera pela última vez. Seu apartamento, agora empoeirado e silencioso, foi abandonado após sua misteriosa "desaparição". Os vizinhos comentavam que ele simplesmente deixara de existir, como se tivesse evaporado no ar. Ninguém sabia ao certo o que acontecera, mas todos concordavam que ele parecia mais ausente nos últimos tempos, como se vivesse em outro mundo.

Um dia, uma jovem chamada Luna, uma colecionadora de antiguidades, visitou o apartamento durante um leilão de itens abandonados. Ela era fascinada por objetos antigos e histórias perdidas, e algo naquele lugar a chamou irresistivelmente. Entre pilhas de livros, móveis velhos e caixas empoeiradas, ela encontrou uma foto desbotada. A imagem era de uma mulher de beleza hipnotizante, com olhos que pareciam seguir quem os olhava. Luna sentiu uma estranha conexão com a foto, como se ela a chamase em silêncio. Sem pensar duas vezes, ela a levou para casa, colocando-a em um lugar de destaque em seu quarto.

            Naquela noite, enquanto dormia, Luna sonhou com a mulher da foto. Afrodite apareceu diante dela, tão real quanto o ar que respirava, mas havia uma tristeza profunda em seus olhos. Luna sentiu uma atração imediata, uma sensação de que aquela mulher era parte de algo maior, algo que ela não conseguia explicar. Quando acordou, Luna encontrou um perfume estranho no ar, uma fragrância que não era dela. E, ao olhar para a foto, jurou ter visto os lábios de Afrodite se curvarem em um sorriso triste.

            A partir daquele dia, Luna começou a dormir mais, como se estivesse esperando por algo — ou alguém. E, enquanto o tempo passava, ela percebeu que sua vida real começava a desvanecer, substituída por noites de sonhos intensos e apaixonados com Afrodite. A foto, agora vazia, caiu no chão do quarto de Luna, enquanto ela adormecia para sempre, abraçando o mesmo destino de Hipnos. E, em algum lugar entre o sonho e a realidade, Afrodite continuou sua busca por um amor que nunca poderia ser completamente seu, presa em um ciclo infinito de desejo, amor e perda.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Poetando por aqui

Vem, senta aqui
Preciso dizer-te uma coisa
Quero-te ao meu lado
Serena como uma manhã outonal
Suave como uma gota de orvalho
Sobre uma pétala de rosa
Quente e forte como um vulcão

Vem, senta aqui
Transforma-me em menino
Que sonha em ser grande
Para amar e ser amado
Sem escrúpulos ou estigmas
Mas com desejo e paixão
Liberdade e coração

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Atualizando minhas leituras

Neste mês e meio de 2025, terminei algumas leituras iniciadas em 2024 e comecei outras. As que terminei já foram mencionadas no post anterior, bem como algumas que reli e uma que iniciei e sigo lendo. Então aqui vão as que iniciei e que não foram mencionadas antes: Yasunari Kawabata - A Casa Das Belas Adormecidas (lido), Pedro Berton C. - 2019/20 Revolución Arte Encierro Poesía-Haikú Pandemia (lendo).

Caso se interessem, acredito que não se arrependerão.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Bem vindo, 2025.

O ano mal começou e já estou mandando ver nas leituras. Terminei de ler "Cem anos de solidão", que havia começado em dezembro/2024, reli "A casa dos Budas ditosos", do João Ubaldo Ribeiro, livro que faz parte da coleção Plenos Pecados, lançada pela Companhia das Letras, reli também os Tomos I e II de "Último Round", do Julio Cortázar. Iniciei a leitura de "As veias abertas da América Latina", do Eduardo Galeano. Desse livro, li alguns capítulos soltos durante a Graduação (há muuuito tempo), mas agora vou lê-lo na íntegra.
Aceito sugestões de leitura.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Poetando por aqui - Meu último poema

Bandeira disse que queria que
seu último poema
"fosse terno dizendo as coisas mais
simples e menos intencionais".
Eu quero que meu último poema
Seja livre como a flor que desabrocha
Sem pedir autorização,
Como a borboleta que voa
Sem direção,
Como o vento que sopra
Levando culpas e trazendo perdão,
Como o rio que "corre"
Lavando a alma na solidão,
Como a criança que brinca,
Dia após dia, sem preocupação,
Como o amor que,
Mesmo sem saber,
Domina meu coração.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Poetando por aqui

Uma noite,
Uma taça,
Alguma esperança.
Um desejo,
Um beijo,
Só sonho.
Um toque,
Uma palavra,
Felicidade?
Solidão,
Tristeza,
Realidade.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Retrospectiva literária 2024 (atualização)

Livros lidos e relidos

Em agosto nos vemos - Gabriel García Márquez
Meia-noite no jardim do bem e do mal - John Barendt
Floresta dos suicidas - Jeremy Bates
A volta do parafuso – Henry James
Robinson Crusoé – Daniel Defoe
A dança da morte – Stephen King (comecei em 2023 e terminei em 2024)
Outsider – Stephen King
Asfalto maldito – S. A. Cosby
Moby Dick – Herman Melville
Contos de amor de loucura e de morte – Horacio Quiroga
Maria Batalhão: Memórias póstumas de uma cafetina – Dante Mendonça
Como enfrentar o ódio – Felipe Neto
Desfiguração – Raquel Setz
As aventuras do Robin Hood – Howard Pyle
Memorial do fim: A morte de Machado de Assis – Haroldo Maranhão
O roubo da coroa de berilos e outras aventuras – Sir Arthur Conan Doyle
Um estudo em vermelho - Sir Arthur Conan Doyle
Um escândalo na Boêmia e outras aventuras - Sir Arthur Conan Doyle
O signo dos quatro - Sir Arthur Conan Doyle
A liga dos cabeças vermelhas e outras aventuras - Sir Arthur Conan Doyle
Além da magia – Tom Felton

O xangô de Baker Street – Jô Soares (reli)
Os Goonies - James Kahn (reli)
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (reli)
Como água para chocolate – Laura Esquivel (reli)
El coronel no tiene quien le escriba – Gabriel García Márquez (reli)
Os meninos da Rua Paulo – Ferenc Molnár (reli)
A revolução dos bichos – George Orwell (reli)
Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez (reli - iniciei em 12/24 e terminei 01/25)
Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Pinkola Estés (lendo aos poucos)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

A boa música nunca morre


 

Poetando por aqui

Vive a vida,
Mesmo que ela não queira
Ser vivida.
Aproveita o momento,
Mesmo que ele
Pareça insignificante.
Usa aquele sapato,
Porque todos os momentos
São especiais.
Come aquele chocolate,
Porque a vontade é urgente.
Abre aquele vinho,
Porque tu és tua melhor companhia.
Lê aquele livro,
Porque as palavras querem habitar tua mente.
Escreve aqueles versos,
Porque o sentimento não deve ser aprisionado. 
Aproveita o dia,
Porque o amanhã...
Quem sabe o que é o amanhã?

terça-feira, 5 de novembro de 2024

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A boa música nunca morre


 

Da série "o cover é melhor que o original"


 

Poetando por aqui

O medo às vezes assusta,
Mas também fortalece.
Uma existência sem medo
É como um pão sem manteiga:
A gente até come,
Mas não tem o mesmo sabor.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Poetando por aqui

Saíste e deixaste
A porta aberta.
Contigo saíram também
Os sonhos,
Os risos,
As esperanças...

Em seguida
O vento fechou
A mesma porta
E aqui aprisionou
A tristeza,
As lágrimas,
O futuro...

Ah, como me dói
Não haver impedido
O vento...

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Poetando por aqui

Se me perguntarem, direi:
Não, não tenho medo da morte.
Tenho medo de subir numa escada,
cair e quebrar o braço.
Da morte, tenho pena.
Por não mais poder
Abraçar meus filhos,
Brincar com meus gatos,
Viajar de moto,
Dizer e ouvir um "te amo",
Rir com meus amigos,
Chorar tua ausência,
Beber vinho,
Jogar Paciência,
Enfim, viver.

O Sonho de Afrodite

               Hipnos era um homem solitário, um fotógrafo que vivia em um apartamento pequeno e repleto de imagens que ele mesmo capturara...